Salvem o Félix


Le Mal- Léo Ferré

LE MAL
 
Em teus olhos o mal se arrasta
Como um idéia de crucifixo
Em tuas mãos o mal passeia
Com um velho sonho avermelhado
Em teu coração o mal embriagado
De alguns momentos de esquecimento
E na sombra o bem que corre
No rio da noite
 
Em teus olhos o mal que se acomoda
Num canto onde eu não vou
Em tuas mãos o mal que se salva
E que tu fias entre teus dedos
Em teu coração o mal que consome
Esse fogo que não se apaga jamais
E na sombra o bem que escuma
Como cavalos desenfreados
 
Em teus olhos o mal que se arma
Para expulsar-me de teu país
Em tuas mãos o mal que colhe
Os cachos pesados e duros da vida
Em teu coração o mal que se acaba
Num suspiro e depois num grito
Enquanto na sombra o bem se levanta
Como o dia depois da noite
 
                                                  Léo Ferré


Escrito por Paulo de Tharso às 01h22
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ARGETINOS

Descolei um livro. ARGENTINOS: MITOS, MANIAS E MILONGAS.
 
                          De Marcia Carmo e Monica Yanakiew.
 
 
 
É um relato muito além dos clichês.
 
Em dois anos e meio de trabalho, somados a mais de uma década de experiência como correspondentes no país vizinho, as autoras montam um quebra-cabeça de um país intrigante. O Mirisola vai gostar, eu acho. Afinal ele é o único brasileiro, que eu conheço, que dança tango no karnaval.
 
O livro explica, por exemplo, um dos segredos por trás da rápida recuperação economica argentina: a desconfiança da população em relação ao sistema bancário. Essa desconfiança leva os argentinos a guardarem seu dinheiro em esconderijos às vezes estapafúrdios. Grande parte da população, dizem as autoras, confiam mesmo é no Colchón Bank.
 
Talvez tenha sido essa desconfiança que tenha alimentado durante anos a inflação argentina, indexando informalmente a economia ao dolar. A conversibilidade do peso à moeda americana, nos anos 90, transformou em direito o que era de fato, e acabou com a espiral inflacionária.
Claro que jogou o país em outra armadilha.
Quando vieram a desvalorização do peso e o "corralito"__equivalente ao confisco da poupança nos anos Collor__ o país quebrou.
 
Quebrou? Em 2002, segundo Marcia e Monica, o Banco Central estimava que "los hemanos" mantinham US$ 35 bilhões no Colchón Bank. Três vezes as reservas oficiais do país.
Com a desvalorização, muita gente enrriqueceu em meio ao empobrecimento geral. Esse dinheiro__ guardado fora dos bancos por uma atávica paranóia__foi um dos principais impulsos para a recuperação da economia argentina.
 
Agora, o livro não se limita, no entanto, à crise e à economia. É uma radiografia da identidade ciclotímica argentina, que oscila entre a depressão e a euforia, a arrogância e a depreciação, quase sempre com humor ácido. Por isso, companheiros, não deixem, sempre que puderem, dar muita atenção aos dois Argentinos da Praça Roosevelt:" Los Hermanos"  Daniel Cavana e Mirisola. O primeiro porque é de fato argentino. E o segundo, porque não tendo o coração mole de Babenco, tem a alma Argentina.


Escrito por Paulo de Tharso às 01h22
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Estilhaços Urbanos

E os tolos falam em compensações, CPIS, devoluções, restituições, alinhamentos, coalizão, fusões de grandes empresas e globalização. mas no fundo, ninguém acredita que a situação mundial possa ser endireitada. Todos esperam pelo grande acontecimento. O único que nos ocupa a noite e o dia. A próxima guerra!
 
  Desajustamos tudo! O que fazer para recuperar o controle? Diga lá, ô grande irmão! (olho para a tv e ela não responde).
 
  Ah, os freios continuam no mesmo lugar? E daí? Será que ainda funcionam? sabemos que não. O diabo rompeu as amarras, deletou o sim e fez baixar o não.
 
  Como eu ia dizendo( antes de ser desonestamente interrompido por um blags-zeste-internete), a idade da eletricidade ficou tão para trás quanto a idade da pedra. Esta é a idade do poder. Do Phoder puro e simples. Eu tenho um amigo, biólogo, o coitado, que resolveria a coisa desta maneira:    Colocaria, diz ele, um vírus mutante no abastecimento de água das cidades e pronto!! Kaput! Finito! The End! La crème de la merde!!!
 
  Mas ele só fala isso quando está bêbado. sente culpa, o coitado! Colégio católico, sabe como é...
 
  Eu não! Eu não tô nem aí! Se Jesus voltasse eu seria Barrabás! 
 
  Não me venham com evasivas, razões sem sentido para que eu pense diferente! Tudo menos ter razão! Tudo menos importar-me com a humanidade, porque para a humanidade eu não tenho importancia nenhuma. Tudo menos ceder ao humanitarismo! de que serve a sensação se há uma razão exterior para ela?
 
  Não me venham com mas...se... mazelas e o caralho, porque está tudo fodido e pronto! Todo o resto é estúpido como um Dostoievski ou Gorki. É não ter o que comer ou não ter o que vestir. Que me desculpe o amigo Mirola, mas é isso mesmo! "Eu sou vadio, porque sou isolado na alma. Sou pedinte, porque imploro aos dias que passem, e me deixem em paz." Isso é que é ser pedinte e vadio. Talvez seja por isso que já não me importo mais com os vadios e os pedintes do centro da cidade. Detesto estéticas do coração. É só o poder que conta! Ah, você não acredita, companheiro.(imito a voz do Lula) É porque você não tem poder, companheiro.
 
                   estilhaço da minha peça: ESTILHAÇOS URBANOS
 
  Paulo de Tharso
 
 


Escrito por Paulo de Tharso às 01h20
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The cactus news - VERTYGO

Para os muito poucos leitores desse blog e que leram o meu novo romance, “Vertigo”,vai aqui algo que pode ser encontrado na conversa de dois personagens. Mauro Alencar(Rodrigo Farias) e o biólogo Daniel(Agente da Keys).

“ Quando você regride em educação, infraestrutura, ambição, em números de técnicos e cientistas, começa a comer a semente em vez de usá-la para semear, mesmo com todas as vantagens comparativas de um país como os Estados Unidos. É uma crise silenciosa, mas é uma crise séria.” Thomas L. Friedman.

 

Isso lá, na porra do país capitalista . Agora imaginem aqui, na República Tupykas?  



Escrito por Paulo de Tharso às 01h20
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LIVRO

Um livro que o mestre Marcelo Mirisola não pode deixar de ter em sua cabeceira; Preconceito Racial em Portugal e Brasil Colônia. O clássico de Maria Luiza Tucci, fala sobre o mito da purificação sanguínea no Brasil.

“ Se avanço, sigam-me. Se recuo matem-me. Se tombo, vinguem-me. Se o sangue tornar-se impuro. GALENOGAL! “ Era assim, parodiando a saudação fascista de Mussolini, que um tônico milagroso prometia purificar o sangue de quem  o bebesse  todos os dias.

O anuncio, veiculado  no ano de 1939, nos jornais brasileiros, seria até pitoresco e divertido, se não antecipasse um surto paranóiko de pureza racial que, com o nazismo, justificaria o extermínio de milhares de seres humanos.



Escrito por Paulo de Tharso às 01h18
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BIEN SÛR

Na quinta-feira, o Le Figaro publicou um artigo do ministro Gilbert Gil intitulado Postmodernité à la Brésilienne.  Lula, Gil e entourage estiveram em Paris para festejar o 14 de julho pois este é o ano do Brasil na França et blá,blá, blá...

Bem, em seu artigo Gil conta que, em viagem anterior à França, estava hospedado em um grande hotel e se divertia zapeando entre os 20 canais árabes disponíveis. Viu lá__ ou melhor, ouviu__ uma grande diversidade de manifestações musicais que ia do folklore puro a misturas que incluíam o rock, o rap e outros ritmos ocidentais: “Uma manifestação daquilo que se poderia chamar de (glocalização?) = a agregação do global e do local na linguagem da música, nos meios de  produção, no público”.

 

Depois de concluir que é assim na França e em toda parte, de que nós já conhecíamos essa mistura fina havia muito tempo, até porque o País foi construído pela miscigenação de raças e de culturas, levas de imigrantes de diversos países, migrações internas intensas, et encore blá, blá, blá, ele está certo de que podemos misturar acordeão, zabumba,triângulo, violão, guitarra, Paulo Zinner, Moacyr Franco, eu, você, nós e todo mundo no mesmo vinil....Ora ministro. Todo mundo sabe que Obelix havia caído em criança na poção mágica. E todo mundo sabe que os candidatos a tropicalistas encontravam-se imersos, de nascença, nessa mistura fina “natural”, nesse rico caldo de cultura. Isso achamos todos, caro ministro. O que o senhor deveria falar ao jornal, e não falou, é que a fonte chamava-se Oswald de Andrade e a antropofagia, senhor ministro. Ainda estamos longe de avaliar por completo a fertilidade desse conceito de Oswald, que não se levava tão a sério e por isso nem tinha tanto trânsito no mundo acadêmico. Ele até tentou uma cadeira na USP, com uma tese sobre matriarcado e foi reprovado. Glocalização é a mãe dos imbecis, senhor ministro! Acho que a Cloaca do Congresso Nacional atingiu também as cabeças “pensantes” do Brasil Varonil. Se Glauber Rocha fosse vivo reinventava a Nação. Êta, êta, êta. Moacyr na cabeça! Tudo vira Bosta!

Eu vou é ler novamente o ensaio de Paulo Emilio Salles Gomes “ Uma Trajetória no Subdesenvolvimento”, no qual tenta definir a relação entre cultura ocupante e a ocupada. “ Nada nos é estranho, porque tudo o é”.

 

 

 

AÍ, Ó !

 

Último dia para conferir o texto de Reinaldo Moraes” TANTO FAZ”  com adaptação de Mário Bortolotto na Mostra de Férias Cemitério de Automóveis que vai até 31/07 no Centro Cultural São Paulo( Vergueiro). Hoje, domingo 21hs. Terça a sábado os espetáculos são às 21hs. Antes, na sala Adoniran Barbosa, às 18hs, show da banda VIPER. Meu primo Guilherme Cagno tá na bateria. Vou tentar arrastar o Nelson e o Zinner do Golpe de Estado, para os dois eventos. Depois; KACHAÇA.

 

Salvem o Félix!



Escrito por Paulo de Tharso às 01h17
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No mesmo instante - parte 2

Foi muito antes - Parte 2

 

Então, a merda veio antes. Veio antes de eu escrever o “Dia de Santa Bárbara”, logo que saí da casa de repouso. Ou, a casa de doídos, como eu passei a chamar quando saí. Eles tratam por loucos, o batalhão de seres que passam diante de uma mesa com idéias mirabolantes na cabeça. Eu vos digo;__ não é nada fácil!

Como os outros que ali estavam, consideraram-me incapaz de uma conversa séria. Trataram-me como uma criança. Ofendido, humilhado e sedado a cada seis horas, eu passei a repetir tudo o que o mestre mandava, como dentro de uma classe.

Se por um lado não havia brutalidade, havia o distanciamento e a atitude paternalista por parte dos psiquiatras e dos psicanalistas. Firmeza e eficiência ortodoxas. 

No entanto, as causas das minhas crises, que me levaram àquela instituição, não foram nem mesmo superficialmente analisadas.



Escrito por Paulo de Tharso às 01h16
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continuação

O que se passou comigo foi o seguinte: Fui internado por meus familiares porque tentei me matar. É verdade, havia as drogas e o álcool, mas isso talvez fosse um sintoma a mais. Muito antes, quando eu tinha oito anos, para chamar a atenção de um pai distante, eu o matei. Explico;  Em uma noite de verão estávamos todos reunidos em casa de um tio que morava em Pinheiros, quando avistamos a queda de um avião. O lugar da queda era relativamente próximo à rua e toda  garotada entrou na Rural-Willians  do meu tio e fomos ver de perto. Fora um avião de carga que caíra, para  sorte do bairro, em um grande terreno que era um canteiro de obras de uma futura instalação da Sabesp. No dia seguinte ao do acidente, na escola, enquanto estávamos na fila de ordem unida, do nada, comecei a chorar. Indagado pela professora, disse que a razão de meu choro era a morte de meu pai. Fui levado à diretoria e lá, continuei a estória contando com riquezas de detalhes o acidente do avião, dizendo que meu pai era o piloto. O fato era manchete nos jornais do dia. A diretora não entendendo nada (pois em minha ficha de matrícula constava que meu pai era jornalista), mandou-me para casa.

Lembro apenas estar descendo a rua das hortênsias acompanhado do bedel que eu olhava de baixo para cima, tentando com um sorriso desesperado fazê-lo entender que era apenas uma brincadeira, uma mentira inofensiva de um garoto de oito anos que queria chamar a atenção de um pai distante. É claro! O que mais eu poderia fazer aos oito anos? Dizer ao bedel; ”__Ai, camarada, foi mal! Pode voltar para escola que eu sigo daqui sozinho. Eu paro no boteco da esquina, tomo uma cerveja e resolvo rapidinho  este problema de rejeição”.  Não!  Eu só podia dar mesmo aquele sorrisinho amarelo.

 Nem preciso dizer qual foi a reação de minha mãe, ao ver-me chegar acompanhado por um bedel que lhe deu os pêsames pelo falecimento de meu pai, ainda que ela estivesse reagindo muito bem à morte dele, uma vez que lavava o jardim ao lado de Maria, nossa empregada.

Fui encaminhado para  uma escola especial para crianças especiais.

Durante uma semana, após o termino das aulas normais, eu ia direto para essa escola, onde uma linda  professora de voz doce e macia se ocupava de mim. Só ela e eu, dentro de uma sala. Era muito bom ter toda atenção para mim.

Muito bem. Passados 22 anos, depois do Rock and Roll de cinco desastrosos casamentos, aliados a desesperança e frustração artísticas regadas a álcool & drogas, eu tentei contra a própria existência e por isso estava  novamente isolado em uma sala. Só que no lugar da professora linda e doce, estavam  psicanalistas e o chefe da psiquiatria, com seu cachimbo e sua empáfia.

Esses médicos que vasculharam minha cabeça para ver se descobriam algo errado, não estavam suficientemente aparelhados com informações sobre meus objetivos e valores para me serem de alguma utilidade, embora eu olhasse seus diplomas pendurados em suas salas, sendo obrigado a reconhecer sua competência. Resultado; continuei me drogando, só que devidamente supervisionado. Por isso, aprendi a pôr em dúvida a validade da autoridade social, tal como existe hoje em dia e creio, sempre existirá, no que se refere a indivíduos que possuam uma atividade artística.

Se por um lado o internamento de uma pessoa “doente” evita que seus familiares e amigos passem por situações desagradáveis e humilhantes.__ E isso por mais irrelevante que possa parecer é um dos fatores que mais conta em uma internação, a integridade social da família, pois impede que a pessoa considerada louca cometa alguma ação irreparável durante suas crises,__ por outro lado, devemos nos perguntar se temos o direito, deixando de lado o egoísmo desmedido, de trancafiar uma pessoa numa casa de saúde para que se cure.

Quando fui considerado louco, por haver dado “provas” de minha insanidade, eu tinha plena consciência do “rompante” do meu comportamento. Aquilo foi muito mais resultado de uma escolha existencial do que uma explosão mental enfurecida.

 Pela primeira vez em minha vida perdi completamente o estímulo e senti uma isolação e frustração incomensurável. Quando saí, sentia-me tão desorientado e sozinho, que pensei em mudar de país. Meus amigos olhavam-me como uma aberração. Mesmo os mais íntimos e inteligentes não compreendiam o fenômeno da leve insanidade. E no entanto, eles votam. Isso é que é insano. O resto é sonolência e uma vontade de não mais compactuar. Mas deixemos essas coisas para lá. Não analisei isso em “O Dia de Santa Bárbara” e não o farei agora.



Escrito por Paulo de Tharso às 01h05
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The cactus

Paixão, retórica e o painho que o povoa ama.

Agora, a política é o campo da disputa pela hegemonia de poder. E é claro, essa disputa não se dá sem paixão. Por isso, aspectos infantis, narcisistas, estão em jogo. É do humano tudo isso. Estou convencido que o personalismo da política, no Brasil, é uma patologia.Tome a Bahia de Cae, do ministro Gil, por exemplo. ACM é o painho que os eleitores vêem como protetor que os ama porque ama a Bahia. O país precisaria superar esse tipo de contaminação.

                                                                       

A Especificidade da Literatura.

 

A literatura é a única arte que nada de objetivamente classificável distingue da não-arte. O pintor ou o músico podem fazer má pintura ou música ruim, e  a sua atividade não fica menos específica. A literatura se serve da linguagem comum. Nenhuma técnica a define.

Como neologismo está registrado o seguinte como definição: “ Todo uso estético da linguagem, mesmo não escrita: literatura oral”.

Há, contudo, especificidade da literatura, mesmo que o uso estético da linguagem recenda à virtude dormitiva do ópio. Vamos fumar!



Escrito por Paulo de Tharso às 00h59
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ELA

                          BROTHER CACTUS.

 

Ela foi embora.___essa frase ficou em minha cabeça, rodando e eu parado, ali, naquela sala. Não é bem uma frase, só um começo de frase. Ela foi embora. Ela me deixou.___ Só lá pelas tantas foi que eu pensei essa outra. Ela me deixou. Essa era para mim, uma espécie de continuação. Ela me deixou.

 

Então, no dia seguinte eu começava a dizer: quando ela me deixou. E só ficou um branco  entre ela foi embora e  quando ela me deixou. E foi como se a imobilidade incomodasse o século.

 

Tudo parado. Palavras paradas no ar. Sem palavras e  nada de ações.

 

Quando ela foi embora, eu fiquei parado no meio da sala, com seu bilhete nas mãos. Fiquei parado até o anoitecer. Anoiteceu e eu continuei lá, pregado no centro da sala, na escuridão da dor. Em vão, eu esperava que o telefone tocasse mas ele não tocava. Eu queria atender e escutar do outro lado da linha alguém. Qualquer um! Qualquer uma! A Márcia dizendo que iria passar para me pegar. O Luiz me convidando para cheirar uma carreira de malacacheta. A Suzana, para irmos ao cinema, ou o Bessa que mostraria seu novo Blues... Mas a porra do telefone não tocava. Não tocou. E depois de algum tempo em que o telefone não havia tocado, eu pensava que alguém poderia bater à  porta. Podia ser o vizinho reclamando do silêncio de tumba que vinha do meu apartamento, ou o porteiro para dizer que não tinha correspondência para mim, ou uma daquelas crianças pentelhas que moram em prédios,e que não tendo o que fazer, tocam as campainhas dos apartamentos e fogem. Mas nada aconteceu e eu continuei parado ali, no meio da sala, a noite toda. Até amanhecer.

 

Depois vieram os dias, e eu passei a ser pedinte. A pedir que as horas, os dias e o tempo passassem, e que a vida me esquecesse.  E desses dias lembro apenas dos gostos que eu sentia em minha boca. Eram vários ! O gosto da vodka, do café, da cerveja, da cachaça... E todas as bebidas, o café & vodka. A cerveja & cachaça. O gim & rum, eu bebia no mesmo copo. O último que restara depois da nossa última briga.

 

E me arrastava de quatro, nesses intermináveis dias em que eu, feito pedinte implorava  para que passassem. Eu me arrastava de quatro do quarto para sala, da sala para a cozinha e da cozinha para o banheiro. Ali, no banheiro, abraçando a privada, saquei o pior dos gostos. Mas, mesmo sendo  o pior dos gostos, tive que me habituar a ele. E me arrastava novamente para o quarto e desabava sobre a cama. E fechava os olhos e não dormia.

 

As lágrimas vinham às sextas-feiras noctâmbulas, sonâmbulas & desesperadas. E eu, eu era um espectro aguardando os longos e tristes finais de semana, sem ela, sem vontade, sem risadas, cinemas, teatros, cervejas, baseados, trepadas em tardes preguiçosas cheias de mistérios go-zó-zos, sem visitas de amigos, sem Alice Cooper ou Tom Jobim, sem viagens...sem nada. Só do quarto para a sala, da sala para a cozinha, da cozinha para o corredor e do corredor para a  privada. E um dia, entre a cozinha e o banheiro, o minúsculo corredor tornou-se um Titânic, balançando e jogando-me contra as paredes que o estreitavam. Então passei a enfrentar as tempestades naquele navio, que separava o quarto da sala, a sala da cozinha e a cozinha do banheiro.



Escrito por Paulo de Tharso às 00h58
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continuação

As segundas-feiras vinham com o nojo na boca do estômago e o ódio amargo na boca cheia de dentes. Depois me encontrava usando óculos escuros diante dos alunos em minhas aulas de francês, que eu ministrava declamando Rimbaud, Baudelaire e Ferré. E eles, os alunos estupefatos, tentavam sem sucesso compreender alguma coisa perguntando eternamente:__.Qu´est-ce que ça veut dire, professeur ?

E, vivendo os dias à contra-gosto pedindo que eles passassem e me deixassem sem memória, com o gosto de muitos cafés & vodkas na boca, acordando entre restos de sanduíches & pizzas amanhecidos, cinzeiros lotados de “guimbas” de cigarro, fui morrendo para o mundo. Ou o cara, que eu nem mais olhava no espelho, é que morria”.

Meus amigos me convidavam para sair, mas eu não ia. Tinha medo de encontra-la nos lugares em que sempre íamos juntos. Bares, restaurantes, botecos, cinemas, são sempre armadilhas. Mesmo caminhando pelas ruas era um inferno. Eu imaginava vê-la em todos os lugares. No metrô, na Av. Paulista, na Heitor Penteado, perto da Brasil 2000 FM, onde eu tinha um programa de rádio chamado Brasil Musea News. Eu vegetava. Alugava vídeos. Quase sempre os mesmos vídeos que nós adorávamos. Betty Blue, eu acho que assisti uma cem vezes.

Aí vieram os Tarôs, as cartas, os búzios e toda essas merdas, que a gente sabe serem merdas, mas que se passa acreditar porque o desespero é mais forte do que a dignidade e do que o bom senso. Aliás, agir com bom senso nessas ocasiões jamais nos ocorre. É um fazer merda sem fim! E é claro, além dela não voltar eu ainda perdi uns duzentos paus na estória.

Um dia, resolvi busca-la em outras mulheres. Bem clichê, certo? Comecei com as amigas dela, que me desejavam quando ela e eu estávamos juntos, e que eu fingia não desejar. Primeiro foi a Lúcia, sua amiga no curso de desenho sobre seda. Depois Marisa, sua amiga da academia. Karen do curso de alemão. Joana, a nossa vizinha que sempre desfilava de calcinha e camisão pelo corredor  para pegar o jornal, encolhendo os ombros como quem sente  frio ou simplesmente quer um abraço, perguntando com seu sorriso lindo; __ E aí, tudo certinho?__ E depois, a Vera, a Ângela, a  Mônica, a Renata, que era sua meia irmã por parte de pai, a Suzi e sua prima que adoravam “un bon ménage à trois”... Também vieram as putas da Augusta, da Martins Fontes, das boates da Bento Freitas e adjacentes. Claro, isso numa época em que se podia deitar ao lado de qualquer pessoa sem medo de morrer.



Escrito por Paulo de Tharso às 00h55
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continuação

Acontece que um dia, sem mais nem porque, eu me peguei rindo. Acho que de uma piada estúpida que li em uma dessas revistas estúpidas. O fato é que ri. E percebi que alguma coisa havia mudado. Percebi que as frases __ela foi embora e ela me deixou ___, foram substituídas por;___depois que ela me deixou. E a frase começou a povoar minhas conversas em mesas de bares, com os amigos de copo. Eu já não bebia sozinho em casa, mas sim com amigos. E já não falava sentindo aquela pressão no peito quando contava a estória. Contava em tom de piada. Mesmo quando não me esquecia de nada! Estou falando da dor, das bebedeiras, das vertigens e também dos gostos. Inclusive do gosto do vômito. Tudo muito engraçado. Eu contava e todos nós ríamos às lágrimas. A gente não esquece de nada, não é mesmo?

 

E então voltei a trabalhar com gosto, a escrever com desenvoltura, a viajar com os amigos, a ir ao teatro, cinema, shows, restaurantes, sem aquele medo de encontra-la, quero dizer, sem mesmo pensar que poderia vir a encontra-la. Ao contrário, cada vez que saía pensava em quem de novo estaria nos braços meus! É! Todo dia, uma nova orgia.

 

Depois pintou aquela viagem, inimaginável para Bahia e depois para Paris. Uma viagem que jamais aconteceria se tivéssemos ficado juntos. E eu fui ! Fui e mandei cartão postal pra toda rapaziada. Principalmente para as amigas dela com as quais eu tinha transado, para que minhas notícias chegassem aos seus ouvidos.

 

E o tempo foi passando, e o mundo foi ficando cheio de tantas mulheres e amigos, de tantas  risadas e canções, de tanto trabalho e palavras, que hoje, quando volto para casa, depois de tirar os recados, abrir os e-mails, descalçar os sapatos, dar comida ao gato, abrir a janela e olhar o pôr-do-sol nuclear, eu quase nem me lembro daquele tempo em que o meu navio ficava à deriva. Os móveis são outros, o vídeo eu troquei por um DVD, a prateleira tem copos novos e eu só bebo vinho tinto. A única coisa que me incomoda ao final do dia, quando sai de cena o céu vermelho e entra a negra noite, é aquele branco entre quando ela me deixou e o agora. É um troço estranho descendo por todo corpo junto com o suor. Como se fosse o nome dela borrado, escorrendo como tinta entre meus dedos. Uma pequena fisgada entre o lado esquerdo do peito e a mente. Por um instante, por um instante apenas, eu acho que sinto assim como que se tivesse pena de mim mesmo. E me pergunto mais uma vez;

Por que ela me deixou ?

A gente não esquece de nada. A gente se habitua.

 

 PAULO DE THARSO                                               

OUTONO 05 



Escrito por Paulo de Tharso às 00h52
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O dia de Santa Bárbara - PAULO DE THARSO

O dia de Santa Bárbara
Paulo de Tharso

Romance

 

1ª Edição

Páginas: 208

Preço: R$ 18,00

Formato: 208 x 138 x 11 mm

Peso: 145 g

ISBN: 85-86303-86-0

O relato provocante de O dia de Santa Bárbara narra a história de Márcio Arroio, um escritor jogado na vida, que se vê envolvido em um crime que ocorrera no prédio onde morava, na presença de sua amiga Gisele, uma garota de programa. O mistério, porém, que permeia a narrativa é só um elemento acondicionado à história política, à marginalidade social e que serve de pretexto para que um velho investigador revele a atmosfera densa do jogo do poder e se redima de sua apatia.

A seqüência de surpresas, a economia dos meios, o encadeamento das soluções fazem de O dai de Santa Bárbara um emblemático exemplar do gênero policial, entretanto original na crueza e emotividade expressas na narrativa. O autor arma uma trama que não nos sai da cabeça e nos faz acreditar que o que era pura ficção é mais real do que parece, até se concluir que a obra é produto de uma intensa paixão do narrador.

O autor:

Paulo de Tharso é cantor, compositor, viajante, escritor e professor de francês. Quando aluno em Sorbonne, conheceu o ator Francis Ülster, que o apresentou ao Grupo dos 30, onde atuou como músico e ator. Com o baterista Duda Costa fundou a banda A Casa Caiu. Compôs ainda para Sidney Carvalho, Adiel, Golpe de Estado, Rossana Torres e Ivete Souza. Gravou seu primeiro CD com a banda Big Bolls pelo selo Wanner.

 



Escrito por Paulo de Tharso às 18h34
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Rebimboca da rosca da Parafuseta

Vamos desenvolvendo com critério, o método de desparafusar a rosca da rebimboca da parafuseta (todinha).

 



Escrito por Paulo de Tharso às 17h26
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