Salvem o Félix


Dom Quixote e a Loucura            

Quando Rodrigo saiu, a tarde estava cinza e fria. Esse dia, ele passou andando. Viu coisas que sempre vira, mas que por algum motivo jamais dera a devida atenção. Não sabia por quê, mas pensava em Dom Quixote e sua loucura. Passou então, a pensar no velho e alquebrado cavaleiro da triste figura.

 
           Em sua maneira de ver, Dom Quixote não era louco. Apenas fingia ser. A rigor, ele, Quixote, orquestrava tudo sózinho. Ao longo de toda sua história, preocupava-se com a questão da posteridade.
 
           Agora, Rodrigo sentia-se, de certa maneira, próximo a loucura de Quixote. Só que não havia testemunha ocular para mais tarde relatar sua história. Então, seria ele mesmo a fazê-lo. Anotaria tudo em seu caderno azul. Talvez um dia, ele ou alguém escrevesse sobre aquilo. Talvez um dia ele compreendesse o que naquele momento era completamente estranho e bizarro. Sentia-se terrivelmente só. Estava abandonado à propria sorte e, nada nem ninguém poderiam algo por ele. Sua história agora, se confundia com as de seus personagens. Pegou o caderno azul e escreveu:
 
           " Ando pelas ruas atrás de um fantasma que sou eu mesmo. Encaro outros fantasmas e mortos vivos. Vagabundos, pedintes, mendigos, bêbados e vadios. Para onde quer que eu olhe, eles estão lá. Loucos ou apáticos alguns mendigam com orgulho, enquanto outros simplesmente estendem a mão, sem esperança de um dia deixar de serem mendigos. Há os que têm vergonha, muito provavelmente, porque um dia já tiveram uma vida que não fosse o desabrigo, a miséria e a rua. Que tinham suas casas e pagavam suas contas. Que tinham seu trabalho, seu companheiro, sua companheira, uma família e que agora só têm suas mazelas, e perambulam, invisíveis, mais mortos do que vivos. Ficam ali largados nas calçadas, sobre pedaços de papelões, que são suas casas, colchões e assentos. Ficam ali, com suas mãos estendidas. Ficam aos farrapos, fedendo a abandono, sarna, piolho morto... Já não mais erguem os olhos, já não falam mais. Balbuciam um qualquer pelo amor de Deus e se vão. Derrotados demais, cansados e doentes demais. Outros ainda tentam trabalhar. São cegos vendendo canetas, bêbados e crianças limpando as janelas dos carros. Ciganas lendo a sorte, pirados nauseabundos contando relatos trágicos das próprias vidas, esperando em vão que alguém se compadeça com suas histórias.
 
         Há os que tem talento absoluto. O cara tocando acordeom, o repentista, o malabarista, o comedor de fogo, o contorcionista, os flautistas, os tocadores de pífano... Um gênio clarinetista, que jamais teve sua chance, e que se teve, a vida levou para outro lado. A cidade, um enorme circo onde todo abandono e crueldade se misturam.
 
           Mas pedintes e músicos de rua constituem uma pequena parte da população de miseráveis e vagabundos. Porque ser miserável e vagabundo, não é ser miserável e vagabundo. Eles são a aristocracia dos decaídos. Muito mais numerosos são aqueles sem nada para fazer, sem nenhum lugar para ir ou voltar. Sem se quer ter uma ponte para si. São viciados e loucos. Mas essas palavras não traduzem o que de verdade encarnam. Gritos de desespero, trapos de gente, corpos esfolados, rostos deformados, sem nome e sangrando. Cambaleiam pelas ruas, como se às ruas fossem para sempre acorrentados.
 
             São maltratados e afugentados das portas dos bares e restaurantes por onde passam, por todos aqueles que temem suas imagens rotas e alteradas. Para aqueles que os afugentam, essas figuras representam seus próprios medos, limites e impotências, diante do inexplicável.
 
            Essa gente segue pala vida-rua, arrastando suas sacolas, suas caixas de papelão, cheias de coisas inúteis para nós, mas que para eles são tesouros. De um lado para o outro, sem chegar a lugar nenhum, pois não há lugar nenhum para se chegar. Estão eternamente de partida, sempre apressados e em movimento constante. Eles só param para dormir e para olhar dentro de nossos olhos, como se quisessem que nos reconhecêssemos em seus olhos. Há o homem que anda enrolado na bandeira brasileira toda rasgada, mulheres com as roupas cobertas dos pés à cabeça com broches e adesivos de campanhas eleitorais. Tem homem gritando sem parar as mesmas frases, furioso, vociferando com o invisível."
 
              Teve vontade de chorar e chorou. É bem provável que tivesse medo de tornar-se mais um dentro daquela multidão. Mesmo que soubesse, em seu íntimo, que ele não fosse assim. Mas a idéia de Quixote o perseguira por toda tarde.
 
               Já era noitinha, quando fechou seu caderno azul. Rumou para a Praça Roosevelt, sentou-se em companhia de Sancho, do barbeiro e do padre. Pediu uma taça de vinho e acordou.
 
Paulo de Tharso.  
 


Escrito por Paulo de Tharso às 15h11
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