Salvem o Félix


                O Indizível   
 
 
 
              Pensando em outra palavra, descobri outro desatino.
                              Para continuar essa história,
                            preciso de outro copo de vinho.
 
 
             Sou um menino de testa abaulada, olhos enormes e pupilas em fogo, a quem as mulheres infelizes envolvem com sua ternura, descobrindo paixões que inflamam minha vida. Som de sinos. Milhões de sinos. Coros de Anjos dentro de igrejas abrem-me horizontes confusos.
O que é o céu, o que é o mar?
            
                Aposso-me do violão. Não sei tocar. No entanto, monto acordes, improviso cantos e pronuncio versos que me levam às alturas.
                 Quando penso estar livre, de todas as tristezas desse mundo,
uma figura tensa e grave aparece diante de mim, e vocifera:
 
                 __ Consagra no fundo de teu coração um altar, para que sempre sua voz me chame sem cessar.
 
                 __ Quem és tu?__pergunto aterrorizado.
 
                 __ Sou o indizível, o terrível. O desconhecido Deus.
 
                 __ E o que queres de mim?
 
                 __ A sua totalidade, ignorante ser. 
 
 
Paulo de Tharso


Escrito por Paulo de Tharso às 00h32
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                                        O Roteiro
 
 
"Conselho aos dramaturgos...Tente ser original na sua obra e tão diligente quanto lhe seja possível, mas não tenha medo de se mostrar pateta. Devemos ter a liberdade de pensamento e só é um pensador emancipado aquele que não tem medo de escrever patetices.(...) a brevidade é irmã do talento. Lembre-se, a propósito, de que declarações de amor, de infedelidades de maridos e esposas, viúvos e orfãos e outras desditas vêm sendo descritas desde há muito.
(...) e o principal é que pai e mãe devem comer. Escreva. As moscas purificam o ar, e as obras, a moral."
 
 
CHEKOV.
 
                 Letters on the short story, the drama and other literary topics.


Escrito por Paulo de Tharso às 00h32
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O Anjo
 
  Para minha tia Dayse Vaz de Almeida    
 
 
     E um anjo feroz, que viajava veloz na noite
                                                                    
                                                                      proibida,
 
       desafiando a lei dos invejosos mortais, fez um vôo rasante,
 
           Chocando-se  contra as pedras do cais.
 
    No momento em que baixaram o caixão de Dayse para dentro da terra, o céu tornou-se cinza - chumbo e uma forte chuva de verão se fez anunciar através de mil raios. Acho que todos os amigos, os desconhecidos , os conhecidos estavam lá. Acho que nem ela sabia o quanto era querida e respeitada, a minha amiga Dayse. Sua irmã (minha mãe) pediu que eu escrevesse algo para ser lido durante o enterro e eu escrevi. Só não pude ler. Foi ela quem leu. Finalmente, começou a chover.
 
          Primeiro, gotas pesadas e espaçadas. Frias por fora, mas quentes por dentro, misturando-se às lágrimas. Depois, aumentando de intensidade, a chuva tornou-se tempestade.
 
           Foi assim, olhando para o céu, e me afogando em lágrimas e chuva, que vi minha amiga partir.
 
           Foi ela quem me criou e me apoiou. Mesmo nos momentos mais difíceis e tristes de minha vida. Mesmo quando eu aparecia de porre ou drogado. Mesmo quando eu desaparecia por semanas. Ela sempre me recebia como se eu fosse seu filho. Atenciosa, amiga e parceira, se tenho alguma lembrança de família é dela que guardo o mais belo retrato. Morreu em meus braços, na madrugada de sexta-feira,29/10.
 
Eu Estava na companhia de bons amigos, quando fui chamado pelo celular. Eu corri. Ela ainda respirava. É claro, que quando cheguei depois de assistir " A Caminho de Casa", na companhia dos bons amigos, eu estava como sempre estive. Bêbado. Ela ainda disse:__ Paulo, que bom que você chegou! É tua vó! Está passando mal." Era minha vó quem realmente havia sofrido um derrame. Mas foi minha tia, que sempre cuidara de tudo e de todos,  foi ela quem partiu. Em silêncio, como sempre fazia quando algo de ruím acontecia. Fazia silêncio e olhava com calma. Morreu em meus braços, vítima de um ataque fulminante do coração. É triste. É muito triste.
 Essa, eu sei, me amou de verdade! Adeus tia Dayse. Obrigado é muito pouco. Mas é o que consigo dizer. Muito obrigado por tudo!
 Teu filho.            
 Paulo de Tharso
        
 


Escrito por Paulo de Tharso às 00h31
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