Manhã (dia de Fúria)
São 07hs da manhã.
Bom dia Vietnã!
Fui dormir às 04:30, 05hs, bêbado, como sempre. Pouco importa. O que importa é que me levanto tão logo desperto. Sempre assim? Toujours comme ça! Arrasto-me pelo quarto, eu coço o saco, atravesso o corredor e entro na cozinha. O cigarro apagado no canto da boca, a tosse seca e alta.
½ Copo d´água, uma colher de germe de trigo,uma de levedura de cevada, uma de linhaça e uma de guaraná em pó. Um comprimido de alcachofra que arremato com um café preto e forte. O Félix passeando por entre minhas canelas, ronrona;__ Minha ração, seu merda!
Enquanto sorvo os líquidos, passo os olhos por sobre o carnê do aluguel, as contas de gás, luz e taxa de lixo (esta eu não pago desde 2003).
O trono, no banheiro, é o primeiro assento do guerreiro.
Ligo o chuveiro.Bocejo. Agora a escova e a pasta de dentes. No espelho, olhos de rã me espreitam e parecem dizer; ”Este cara não tem a mente sã.”
Banho tomado, cabelo molhado, corpo vestido, volto ao quarto e ela está em sua morte aparente. Tenho vontade de esbofeteá-la, como se esbofeteia alguém para tirar-lhe de uma síncope, só para perguntar-lhe;__ Você não tem raiva? Você não tem raiva de se assumir assim, nessa lenta senectude, enquanto, lá fora, existem mais de 98.000 espécies de flores, espécie de idiota? Mas não o faço.
Agora são 08.hs da manhã, e eu já estou me empacotando na desordem das massas. Lotação. “Dizem as más línguas que ele até trabalha/ mora lá longe e chacoalha/ num trem da central”. Bendito Chico Buarque! Café com pão, café com pão na seara de um só dono.
__Bonjour, Mademoiselle MTV. Savez-vous votre leçon? Et c´est parti!
Advogados(as), estudantes, vjs, um ator e um pianista são os pratos do dia.
A manhã passa e, ao meio-dia, já dei cabo de um estudante, __o outro cancelou__ de dois advogados e um vj.
Ligo para um amigo que é escritor e o convido para almoçar;
__ Não vai dar Paulinho, marquei almoço com uma cabrita, he, he, he!
Comida no prato e me calo com a boca de feijão. Maldito Chico, de novo!
Depois do almoço leio o jornal e ainda faltam um ator e um pianista. Mas que “Cazzo” quer um pianista com o francês? Acha que tocará melhor Ravel?
Entre um ônibus e outro metrô, ocupo-me com textos daquele escritor amigo, __ que preferiu cabritas a almoçar comigo__ ousando preferir o que ele escreve às “estruturas”, que não são seus fatos, mas artefatos, fruto das análises de exegetas mais ou menos inspirados, descubro que Joana a contragosto é demais!
O ator me recebe;
__ Bonjour, professeur! Est-ce qu´on peut lire aujourd´hui “La viande” de Michel Rachline?
__ Dac! Pourquoi pas? On fait ce qui tu veux!
Graças um grande dramaturgo, ator, escritor esmerado, meio cantor e compositor interessante, amigo de copo e de fé desde 2002, passei também a carregar, na mochila, um Frank Miller. Minha última aquisição foi “A Cidade Do Pecado”. De volta para casa, num transporte público lotado, nada melhor para se ler.
Não me privo o direito à ignorância, por isso, coloco um bigode na Gioconda e chego em casa para ouvir a marcha fúnebre de Chopin, antes de sair novamente para beber um chope e escutar um Jazz no bar do Régis Trovão.
Escrito por Paulo de Tharso às 16h33
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