
MEMÓRIA
A memória é a faculdade de saber que temos de viver.
Então, os amnésikos não podem saber que vivem.
Quando bebo, torno-me amnésiko para esquecer, quando acordo, que tenho de viver.
São tudo maneiras de se viver para os outros.
Minha maneira é beber. Beber pra esquecer que tenho de viver para os outros.
E é isso que tento esquecer. Os outros.
Você me diz que isso é uma idéia tortura.
O que importa que seja, se é apenas uma idéia?
E uma idéia não é menos bela que outra.
Você diz que é uma idéia tortura.
Eu digo:
É só uma idéia obscura.
Escrito por Paulo de Tharso às 19h53
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UM BLUES PRO MEU AMIGO GONZOLOTTO
Há muito tempo brinco com a morte/ Não digo que somos amigos/ Mas nos conhecemos o bastante para tirar a sorte/ A dor é só uma espécie de azar.
Há muito tempo brinco com a morte/ Pra ver quem é mais forte/Ela e eu, jogamos assim/ Todo santo dia eu abro uma garrafa de gin/Uma dose pra ela/ Outra pra mim.
Há muito tempo que penso enganar a morte/A ela ofereço minha cabeça/ Que ela aguarda, com a paciência de um espadachim/ Há muito tempo que ela espera por mim.
Te cuida bro! Por favor.
Escrito por Paulo de Tharso às 15h09
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Eu não hesito mais quando vejo a loucura.
Faço suas encomendas e provo da sua doçura
Caralho! São 08hs da manhã e eu me encontro de novo na lona do ringue da vida. Rinjo os dentes e tenho que entrar na ducha fria. Cortaram a luz. Bebi muito ontem. Tava em boa companhia, mas isso não tirou aquela dor do peito. Vou até a cozinha. A geladeira vazia me oferece uma cerveja quente. Aprendi a beber cerveja quente fazendo a peça "Efeito Urtigão". Manhã fria. Merda! Por que fere-me os olhos, a luz do dia? Queria não ter acordado. Não hoje. Hoje, Nicolau Sarkozy, com seu sorriso de direita franco-liberal, vai dizer o que pretende para França. Como vaticinou Léo Ferré, "la France deviendra le pays des flics". Esse kara é um mala da aristocracia húngara. Ele é filho de família nobre. Seu pai nasceu em Budapeste e foi para França, cagando de medo da Revolução Comunista. Esse puto, que é filho de imigrante, não aceita o voto estrangeiro na França. Ele é contra. O húgaro é contra! Uma dramaturga, de "l´avant-garde" francesa, muito paparikada pela "inteligenzia" de Paris, Yamina Reza, apoiou este reaça. Eu nunca gostei do trabalho dela, mas não entendia por que ela, que era do partido humanista francês e admiradora de Sartre, apoiava este kara? Descobri. Ela é amante de Sarkozy. Essa também é boa biska. Son père era diplomata. Não vou falar dela porque meu amigo e diretor de theatro Marcos Loureiro vai ficar chateado. Só vou dizer que detesto essa mulher. Uma babaka, que acha que sabe tudo da vida. Não queria ter levantado hoje pra saber que um amigo professor apanhou de policiais ontem, durante o protesto da classe, em São Paulo. Piada! E o São Paulo do meu querido Nelson Peres, empatou e perdeu a liderança na libertadores. Pelo menos dessa notícia eu gostei. Sem piedade, Nelsinho. De resto...Eu vou tomar um domeq e tentar voltar a dormir. Ah, à noite, lá no Centro Cultural São Paulo, na mostra do Cemitério de Automóveis, A Frente Fria vai chegar às 21hs.
Escrito por Paulo de Tharso às 09h54
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EFEITO URTIGÃO
Mais uma vez Mário e eu no CCSP às 21hs. Gosto muito desse texto e de estar em cena com o Bortolotto. Tenho andado triste e muito perturbado. A solidão bate na soleira do meu coração que já não bate mais feliz. Tá tudo dando muito errado. Então, quando entro em cena com esse cara, a gente vive duas outras estórias que de certa forma traduzem coisas que estamos sentindo. Sempre que possível, agradeço a Deus por ter conhecido esse cara, o Mário. Agradeço por poder estar atuando, cantando, compondo e escrevendo novamente. Agradeço por ainda poder lecionar Francês, achando que estou fazendo algo de bom para os outros. De poder andar com minhas próprias pernas e com saúde para enfrentar as noites frias que virão. Ontem choveu muito e eu fiquei andando sem rumo sob a chuva, batendo sozinho esse texto que a gente vai fazer com um nó no peito essa noite. Queria muito ter conseguido chegar ao MASP ontem, para assistir o Nelson Peres e o Bortolotto, na leitura da peça do Sérgio Mello. Não cheguei. E fiquei triste porque quando ouço, assisto e estou com esses caras, eu até consigo um lampejo de felicidade. Tá muito difícil chegar em qualquer lugar. Mas com certeza estarei lá, no palco do porão.
CENTRO CULTURAL SÃO PAULO. HOJE. 21HS
Escrito por Paulo de Tharso às 13h39
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