
Eu só precisava de um telefone
__ Boa-tarde , seu Jorge. Será que eu pos...
__ Hein? O que você quer? É proibido vendedor aqui no prédio, viu?
__ Não, não, seu Jorge! Eu sou o seu vizinho! Moro aqui ao lado, ta lembrado?
__ Ah, Você é o cabeludo, né? O que você quer?
__ Olha...é que eu preciso telefonar...
__ Ah, o telefone. Foi bom você chegar. Entra, pode entrar. Cuidado com a gaiola do Arquibald.
Entrei com cuidado, esquivando-me da gaiola vazia, com a portinhola aberta, que estava no chão. O apartamento do velhinho tinha um cheiro azedo misturado com lavanda. Cheirava a mofo-abandono, mofo-foto-amarela. Paredes
mofentas, carpete mofo, xaxins cobertos de mofungos.
Ele, encouraçado em seu pijama mijado, com os pés nus enfiados em pantufos de lã esgarçada, fechou a porta e a trancou como se, lá fora existisse um inimigo mortal pronto para atacar. Virando-se para mim, apontando uma velha poltrona feita de veludo cor-de-sangue, pediu que nela eu me sentasse.
__ Obrigado, eu disse. O senhor sabe, eu só preciso...
__ Eu sei, eu sei! Não se preocupe, tudo se arranja. É só um contratempo. Não poderão nos encontrar aqui, certo? Eu sabia que você não me esqueceria! Ora, veja como as coisas são: Marula desapareceu! Nem uma carta, nem um telegrama.
Eu, sentado na poltrona, ouvia o velho falar sem entender nada, sem conseguir mover um músculo do corpo ou do rosto.
Fiquei lá, tentando compreender o incompreensível verbo que aquela boca desdentada balbuciava, confundindo minha cabeça atormentada. Eu precisava falar com Belfort. O telefone ao alcance da mão, diante dos meus olhos. Era só pegar e seguir dizendo: “sei...é claro...ãhã...” mas não o fiz
Fiquei olhando o velho. Fiquei olhando, por sobre os seus ombros arcados, as fotos amarelas pregadas nas paredes mofentas, onde jovens, em preto e branco, posavam com camisas de seus uniformes de um time de futebol, cujas cores só ele saberia dizer. Ou não mais. Fotos de soldados, garotos armados com fuzis e baionetas, cujos nomes, virtudes e fraquezas, só ele conhecia, ou não mais. Fotos da família que, certamente, o esquecera.
Porque velhice é essa merda mesmo, eu pensava. É esse abandono, essa solidão, é esse descaso. A gente finge que velho não existe, não respira, não sofre, não fala coisa com coisa, não pensa, não ama. Velho só perturba, dá trabalho, resmunga, tem incontinência urinária. Velho é um saco!
Esqueci da polícia, do Belfort e de tudo, porque tudo podia esperar. O telefone estava ao meu lado, era fácil. O velho sim, não podia esperar....
__ Ah...., eles pisotearam os canteiros de flores de minha mãe. Uma maldade sem fim...Mas diga: foi o Marula que te mandou? Como ele está?
__ Bem, muito bem. Mas o senhor sabe como é, ele ainda não pode vir, mas pediu que eu o avisasse que está tudo bem e logo ele estará aqui.
__ Ah...esse Getúlio é um ditador! Mas o Lot vem aí e JK é um homem de visão! O problema é que o Jango acredita nos militares...eu estou muito cansado, sabe?
__ Claro__eu disse__ levantando-me da cadeira e segurando o velho. Vou coloca-lo na cama, seu Jorge.
Coloquei-o na cama e o cobri com a colcha.
__ Descanse, seu Jorge. Está tudo bem.
__ Fique atento que o Marula pode chegar. Se chegar, me chame.
O velho virou-se de lado e dormiu. Ao sair do seu quarto, quase tropecei em sua comadre e seu penico cheio de mijo, que esvaziei na privada. Fechei a porta do quarto e fui direto ao telefone. Precisava falar com Belfort. Ao tirar o fone do gancho , descobri que o telefone não funcionava.
Não praguejei, não senti raiva, não nada. Olhei as fotos na parede, sorri em meu pensamento e saí levando no coração uma tristeza conformada que jamais saberei explicar.
Trecho do meu livro "O Dia de Santa Bárbara"
Escrito por Paulo de Tharso às 13h24
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Desenho de Kitagawa
SUBURBANO KORAÇÃO
Eles chegaram muito cansados.
Beberam um resto de conhaque vagabundo e se olharam tristes.
O dia dela tinha sido uma verdadeira tragédia.
Ao sair do trem, tinha sido roubada.
Carteira, com o salário do trabalho de faxineira, RG, CIC, a fotografia dele e do filho de cinco anos.
Enquanto ele ficava olhando para a lâmpada amarela e fraca que pendia do teto,
ela foi buscar o filho que ficara com a vizinha, dona Aurora .
Ela voltou, deu uma banana para a criança e a colocou para dormir.
Ele, estava exausto de tanto bater pernas atrás de emprego em construção civil.
Era um homem de andaimes.
Mas não tinha sequer o ginásio completo, e depois, já passava dos quarenta.
__Ninguém quer um homem de quarenta se equilibrando nas tábuas dos andares em construção._resmungou.
Ela foi se despindo lentamente e ele , que a olhava sem desejo, também começou a tirar as roupas velhas e puídas.
O conjugado, de tão pequeno roubava o oxigênio .
__Vão despejar a gente. Quatro meses de aluguel atrasados.
Eu não te falei mas...estou grávida!__Disse ela, enquanto se deitava na cama.
__Eu sei. A comadre Aurora me contou.__Disse ele, indo calmamente até o fogão e abrindo o gás.
Deitou-se ao lado dela.
Ele a abraçou como jamais havia abraçado, e ficaram respirando fundo.
Um, escutando a respiração do outro.
Escrito por Paulo de Tharso às 06h08
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O Poeta armado
J.Martins, encore!
Cidadão!
"A possessão do poder, inevitavelmente, dilapida o livre uso da razão.”
Kant
Cessam os tambores. Silenciam os clarins.
Sinos não dobram mais! Bandeiras não tremulam. Calada está a cidadania.
Os longevos estão perplexos. Nada para ver! O cinismo venceu! Triunfa, mais uma vez, a mentira, dita e redita como verdade.
Apaga-se a última chama. Nada de luzes. Manto de trevas cobre o solo Brasil.
Assim foi na quarta-feira passada (uma semana esquecida, porque é um país sem memória), desdita de um poder emporcalhado por hipócritas e traidores.
Sem bandeira, as vozes desafinam o canto varonil. Que hino nós podemos cantar?
Sem as vozes do STF, que há poucos dias haviam sinalizado um novo rumo de civilidade, altivez e respeito à lei, que hino iremos cantar?
Morre no Senado , assentado na “Praça dos Três Poderes”, nosso auriverde pendão, defendido outrora, por homens como; Sebastião Dantas, Afonso Arinos, Milton Campos, entre tantos outros.
Percebo a solidão na voz de Fernando Gabeira, ex- guerrilheiro e autor de “Entradas e Bandeiras”, hoje Senador, gritando no deserto.
Assim como a solidão de outros homens de bem que, em vão, lutam uma luta inglória.
Hoje, parcela dos membros deste “Senado”, são apenas caricatos vendilhões, ratos e réprobos, também 40, como aqueles outros que compuseram a votação do escândalo do .... Meu Deus...Estou também gritando no deserto. Tenho 76 anos... Quem quer ouvir?
A cloaca , é que ultrajam a representatividade parlamentar, concedida pelo voto popular... Quer saber? Cidadão... às armas! Poetas; Aos papéis! Não votem mais!
J. Martins
Escrito por Paulo de Tharso às 02h37
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A CIDADE...SEMPRE A CIDADE
É a cidade que vai te seguir! E as ruas em que você andar, os prédios que você conseguir avistar, as avenidas por onde você passar, e becos sem saídas (que com certeza na vida irá encontrar), tudo isso não estará mais lá, quando você voltar a olhar novamente.
Você não segue e não muda porra nenhuma!
É a cidade que vai te seguir e te deformar. Ela é que se transforma.
Me-ta-mor-fo-ra-se.
Por dentro do teu pensamento.
À tua volta!
Percebi isso voltando pra kaza, bem antes do dia amnhecer. Sem amistosas, sem gritos, sem sangue. Foi depois de fazer a última apresentação de “Medusa”, descendo a rua, de costas pra Deus, de frente pro kaus, com meu tornozelo bêbado e inchado.
É a cidade, sobretudo à noite, que te fornece os cenários mais representativos. Do “mais vulgar e miserável” até as torres de mármores.
Dentro da cidade, o prazer ilegal, é legal e próspero.
Então, vamos lá!
O que tem fome
Te rouba
Te rouba
Porque tem
Fome
Te come
Ruas
Feitas
De
Outras
Ruas
Avenidas
E a cidade vai te ver enlouquecer, envelhecer em meia tempestade.
Vai te ver decepado! A velocidade, camarada! A velha de Albert! A velocidade! É por isso que sou tenso.
Há teoria
Relativa
Nas calçadas
Pisadas
Da
Minha alma
Você não segue e não descobre nada. É a cidade que te persegue, cresce, se transforma e te engole. Pelas bocas do metrô, direto para seu subterrâneo ventre. Direto para as bocas de lobo..., Nas enchentes.
Decrepitude
Aos quarenta
Não é para
Quem pensa
É para
Quem marcha.
Escrito por Paulo de Tharso às 02h28
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Só mais uma vez. E nunka mais, certo?
Só uma vez mais, e mais nenhuma vez, serei para você um astro.
E olha só, maruja, se tomar o ângulo errado de marear, mesmo em plena maresia, eu juro...eu juro, irei te matar!
E para você, marujo, que acredita que sereia sabe navegar, eu digo:
Marujo corrente, não te despedaces, por uma estrela. Ela não vale o teu soldo! Ela não vale tua vida!
Ela te levará até as rochas. Por conta do ângulo errado de amar.
Eu sei. Eu vi e vivi kada onda desse mar.
Tenho vinte e cinco anos de tempestades e não desisto de navegar.
Jamais acredite nas estrelas, que ela, a sereia, te apontar.
Porque a lua, que é mais poderosa, pode assim, num repente,
mudar!
Sont toutes des salopes!
Croyez-moi!
Escrito por Paulo de Tharso às 02h27
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